Mamonas Assassinas – 30 anos





Entre 1995 e 1996, eu tinha doze anos e era fã de carteirinha dos Mamonas Assassinas. Tinha uma pasta gigantesca repleta de páginas de revistas e não perdia nenhuma apresentação do grupo na TV. Meu integrante favorito era o tecladista Júlio Rasec. Quando soube que eles fariam um show na minha cidade, infernizei a vida dos meus pais por dias até conseguir ir. Minha tática de guerra? Eu mantive o CD da banda tocando no volume máximo até o meu pai ser convencido pelo barulho extremo. A artimanha infantojuvenil deu certo e ele cedeu. 

Tenho alguns flashes do show, mas não me lembro de muita coisa. Quanto mais envelheço, vou me afastando naturalmente das memórias antigas. Mas essa diluição das recordações nunca alcançou o carinho que nutro pelos meninos de Guarulhos. Isso está guardado em um compartimento da minha mente que evito abrir para não me entristecer. Dinho, Júlio, Samuel, Sérgio e Bento eram pessoas queridas, divertidas e engraçadas,  um tipo de gente que parece não existir mais. Eles eram sinônimo de alegria. Só que é quase impossível não sentir tristeza ao recordá-los. E, agindo dessa forma, sinto que acabo indo contra o legado de felicidade que eles nos deixaram. Para evitar essa melancolia, sempre evito tocar nesse tópico. Mas, como já se passaram trinta anos, gostaria de falar um pouco sobre isso.

Lembro nitidamente da manhã do dia 3 de março de 1996. Fui acordada de supetão pela minha mãe. Ela apareceu na porta do meu quarto e disse que a banda sofrera um acidente. Como eu não estava completamente desperta, só consegui dizer que esperava que eles estivessem bem. Então, minha mãe disse a frase que me fez saltar da cama e correr para a sala. No instante em que apertei o botão da nossa velha televisão Mitsubishi, surgiu a vinheta do Plantão da Globo. Em segundos, imagens de um helicóptero mostravam uma das asas do avião presa ao topo de uma árvore. Até hoje, quando escuto a música desse intervalo especial, meu coração fica acelerado. 

Passei o domingo inteiro na frente da TV, pulando de canal, tentando lidar com aquele sentimento novo. Era uma dor gigantesca. Nos meses seguintes, aquele luto transformou-se em uma raiva absoluta. Tudo parecia injusto. A vida é repleta de injustiça e sofrimento. Só que, quando se é criança ou adolescente, vivemos protegidos por uma barreira de esperança, onde a imaginação faz tudo parecer belo e possível. Uma das frases mais célebres do escritor Franz Kafka, de quem admiro muito, é justamente sobre isso. De como os jovens têm uma habilidade de ver a beleza do mundo. Só que, naquela manhã de domingo, esse véu de proteção se dissipou, e o fandom da banda, que era formado majoritariamente por crianças e jovens, foi consumido pela crueza da realidade. 

No meu caso, fiquei profundamente abalada por meses. Me isolei. Não queria falar com ninguém. Chegava da escola e ia direto para o quarto. Eu me sentia protegida ali dentro diante da incerteza do mundo. Quando finalmente comecei a melhorar, no ano seguinte, minha avó paterna, por quem eu tinha profunda adoração, faleceu vítima de um câncer. Mais uma vez, eu não conseguia sentir apenas tristeza. Eu transformava tudo em ódio. Naquele ano, larguei o basquete, repeti de ano... Eu não sabia lidar com aquele efeito cascata.

Até hoje, tenho esses momentos de raiva incontrolável, algo que foi despertado novamente pela morte acidental da minha mãe em 2014. Naquele mesmo ano, fui morar em Guarulhos por alguns meses. Não consegui visitar o túmulo dos meninos, pois estava lidando com muita coisa. Meu cérebro se desconectou do mundo real para evitar o sofrimento. Passei meses com uma espécie de "névoa mental", tentando flutuar para longe da dor. 

Certa vez, precisei me deslocar da Vila Galvão até o bairro de Pimentas, no outro lado da cidade. Era um dia nublado e eu ainda estava muito imersa nos meus pensamentos e no luto pela minha mãe.  Por uma dessas coincidências da vida,  durante essa "viagem" de aproximadamente 22 quilômetros dentro dos domínios guarulhenses, acabei passando de forma inesperada pelo Parque CECAP, um dos marcos da história dos meninos. Eu não fazia ideia que ele ficava naquele percurso, pois não conhecia a cidade muito bem. Nesse momento, saí completamente daquela espécie de sonho febril que eu estava experimentando naqueles últimos meses, e tive uma sensação de conforto ao ver aquele cenário. Era um lugar familiar, a quilômetros da minha cidade natal. Senti uma alegria profunda ao reconhecer aquele local. Reencontrei um sentimento que havia sido abocanhado pela morte repentina dos meninos de Guarulhos. Meus velhos amigos voltaram para preencher, ainda que por apenas alguns minutos, o meu coração, que também sofrera tanto por eles.

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