Livros, séries e o doc Copan (2025)

                                                     





Tenho como meta atual ler mais livros. Neste mês, já li três obras. O primeiro deles é A Cabeça do Santo, o qual foi escrito pela cearense Socorro Acioli. É tudo aquilo que as pessoas estão falando. É uma obra que fornece muito para a imaginação. Você vai para a cidade de Candeia junto com Samuel. Na minha cabeça, eu conseguia ver até as ruas empoeiradas daquela cidadezinha amaldiçoada. É desse tipo de livro que eu gosto. Que te leva mesmo para uma viagem. No meio da leitura, soube que A Cabeça do Santo foi concebido em uma oficina de escrita ministrada pelo escritor Gabriel García Márquez que, na minha opinião, é um dos grandes mestres desse tipo de literatura.  Quando li O Relato de um Náufrago na minha adolescência, obra escrita pelo Gabo, tive a sensação de estar alguns dias navegando ao léu pelo oceano. Minha cabeça se confundia com a do personagem e é uma sensação maravilhosa. 



Terminei hoje Por Britney, livro da escritora francesa Louise Chennevière. É um pedido de desculpas que a autora dedica à cantora Britney Spears. Louise era fã de Britney na infância e não conseguiu entender, na época, a fase tumultuada que a artista passou em 2006. Através da carreira de Britney, Chennevière interliga a sua história de vida com a da cantora e escreve sobre os papéis que devem ser ocupados pelas mulheres neste nosso mundo que tanto beneficia os homens. Ela fala da misoginia nossa de cada dia e faz observações riquíssimas sobre como Britney foi vista como uma "louca" em 2006, assim como todas as mulheres que se atreveram a sair das caixinhas condicionantes que a sociedade oferece para pessoas do sexo feminino, a partir do momento em que a cantora resolveu abandonar as características que a transformavam em um objeto de desejo masculino.

Os vários documentários que foram produzidos na época do Free Britney, assim como o livro escrito por Britney, mostram todas as coisas horríveis que ela passou ao longo dos anos na indústria musical. E mesmo assim, muitos ficam bastante incomodados com os vídeos de Britney no Instagram. E por que isso ocorre? Pois ela não tem mais o cabelo perfeito, seus dentes são irregulares.... Ela não é mais a jovem de outrora e vivemos em um mundo que não permite que as mulheres envelheçam de forma alguma.  Ela está cada vez mais longe da imagem perfeita do passado. Para alguns, isso é puro desleixo e trauma. Mas, na verdade, essa é uma tentativa de uma mulher de reescrever a sua própria história. Ao controlar sua própria narrativa, Britney assume um comportamento que a distância da objetificação, mesmo que, em alguns momentos, a sua dança pareça insinuante. Ela controla o que mostra ao público, pois por muito tempo esse poder estava nas mãos daqueles que controlavam sua carreira. Ela não quer mais ser a Britney Spears que nós conhecemos, pois essa imagem perfeita é uma construção da gravadora, dos figurinistas, dos empresários, da própria indústria musical. Spears era um produto com uma personalidade moldada por homens. Depois de tantos anos, finalmente a cantora está encontrando a sua própria voz. Eu fico genuinamente feliz ao saber que a Britney está conseguido reivindicar para si a sua própria história e publicou o seu livro biográfico. Quase toda a sua trajetória dentro do estrelato foi muito documentada a partir da ótica masculina. Ela ficou muitos anos em silêncio e conseguiu finalmente colocar todos os pingos nos is, principalmente depois de anos tendo que viver na sombra das narrativas criadas por Justin Timberlake, Kevin Federline e seu pai, Jamie Spears, membros fundadores do clube dos homens Chernobyl.

Mudando um pouco de assunto, eu disse que começaria a ver os filmes dirigidos por mulheres, mas não vi mais nenhum longa da minha lista. Fiquei entusiasmada demais com uns filmes antigos do catálogo da MGM+ e com algumas séries da Apple TV. Eu vi Margo's Got Money Troubles, uma série estrelada por Elle Fanning. Fala sobre uma estudante universitária que acaba engravidando de um professor e precisa arrumar uma forma de sustentar a criança. A Elle é uma atriz excelente, disso nunca tive dúvidas, mas, nessa série, ela consegue atingir mais um degrau do seu potencial artístico. Não quero dar spoilers, mas esse seriado conversa muito com o livro Por Britney.

Eu também terminei a 1ª e a 2ª temporada da série brasileira Os Outros. A primeira temporada é um show de atuação do elenco. Amei ver Eduardo Sterblitch naquela skin diabólica. O roteiro da trama é muito bem escrito. Ele te envolve completamente na vida caótica daquele condomínio. Eu assistia um pouco do episódio e o clima pesava tanto na tela que, em muitos momentos, pausei a série e fui dar uma caminhada dentro de casa. Também fiz muita mentalização inspirada em mindfulness... Tudo para lembrar que eu não estava dentro daquele prédio.

Quanto à segunda temporada, eu gostei da história, mas não me pegou tanto quanto a primeira. Comecei a terceira parte, a qual é estrelada por Lázaro Ramos, mas ainda não terminei. Eu gosto do plot, mas não me envolveu tanto. Quero retomar em breve.

Assisti a Shrinking, série estrelada por Harrison Ford, e confesso que amei a primeira temporada, e só assisti às outras duas movida pela esperança de que fosse melhorar. Eu deveria ter tido esse comprometimento com Ted Lasso, mas só vi duas temporadas.

Obviamente, como fã número um de Nicolas Cage em solo brasileiro, vi Spider-Noir. Mesmo sendo uma pessoa que prefere a DC e não aguenta mais nada do universo da Marvel, eu adorei a série. O Cage nasceu para interpretar o personagem. Ele está belíssimo.

A história é muito legal e tem uma pegada bem gótica. Só que muita gente não vai gostar, pois os episódios têm uma vibe mais lenta, uma fotografia que remete aos filmes noir dos anos 1950, e uma montagem muito distante do que a gente vê nos filmes dos Avengers, por exemplo, onde tudo é salpicado na tela e você acaba sendo asfixiado por tanta informação. 

Também vi Copan (2025), longa dirigido por Carine Wallauer É um documentário bem corajoso, pois foge daquela narrativa documenal tradicional, onde tudo precisa se conectar com precisão. A diretora opta por disponibilizar uma teia de fragmentos que te colocam dentro do prédio durante a pandemia. É um negócio meio voyeurístico: você passa por vários apartamentos, ouve o barulho que sai das portas dos vizinhos, participa das assembleias caóticas do condomínio.

Eu achei esse formato bem mais interessante. Carine propicia algo muito mais complexo ao espectador do que simplesmente assistir a um filme de forma linear; ela te coloca dentro do objeto documentado, e você se sente parte daquilo. Eu achei maravilhoso, pois sou uma pessoa que ama arquitetura e, na juventude, já ambicionei muito morar no Copan, pois ele é lindíssimo.

Foi superemocionante vê-lo pessoalmente pela primeira vez, pois ele é literalmente uma onda de concreto que se ergue no centro de São Paulo. Não tenho mais esse desejo de viver lá, mas ainda me sinto completamente fascinada pelo prédio e, através desse documentário, me senti uma moradora honoris causa por uma hora e pouco de projeção.

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